Crescem as pressões sobre o uso abusivo de álcool. Esse hábito remonta a épocas imemoriais e os males que provoca são conhecidos por todos. Semelhante a diversos hábitos que levam à dependência como o fumo e outras drogas, seu uso é quase universalmente tolerado, a despeito dos comprovados males. O fumo e outras dependências já não gozam mais dos privilégios de ser anunciados em público como portadores de virtudes. Mas as bebidas alcoólicas continuam em cena, um pouco restritas, mas continuam. Os slogans adotados são: “Se beber, não dirija”; “Sabendo beber só dá prazer”; ou: “Beba com moderação” e outras amenidades quase inúteis, pois contém, implícita, a mensagem: continue bebendo. Enquanto se amplia a pressão sobre o livre uso das bebidas alcoólicas, paralelamente se divulgam novas descobertas de virtudes do álcool em forma de vinho tinto. As virtudes são as propriedades cardioprotetoras. Se bebermos, dizem, pequenas quantidades – um copo de vinho diário -, teremos menor chance de riscos relativos à obstrução das artérias coronárias e conseqüentes ataques cardíacos. O PARADOXO FRANCÊS: Essas novidades têm origem no chamado paradoxo francês. O que é isso? Atualmente, os franceses comem mais gorduras que os americanos, mas têm menos problemas cardiovasculares e outras doenças como diabetes e hipertensão. E a razão disso é atribuída ao consumo diário de vinho tinto. É verdade que o vinho contém uma quantidade de substâncias chamadas antioxidantes que podem ser benéficas. Mas, essas substâncias protetoras são provenientes da uva e não do álcool. A principal causa do melhor estado de saúde dos franceses reside no consumo de alimentos mais naturais, pouco processados e em menor quantidade. Além disso, eles caminham mais que os americanos. Quem levou a fama foi o vinho tinto e, por tabela, as quantidades moderadas de álcool que o vinho contém. Quimicamente, o álcool é catalogado como depressor do sistema nervoso. Inicialmente, ele afeta a memória, diminui os reflexos e depois deprime as funções gerais do sistema nervoso. Acabamos, então, perdendo o controle sobre as nossas ações. Aproximadamente 10 a 15% dos bebedores moderados, tornam-se alcoólatras. Se bebermos regularmente, o que poderemos esperar que aconteça com nossos neurônios? Ocorre uma degeneração das células por deficiência de vitamina B1 (tiamina). O cérebro diminui de tamanho e os nervos perdem a capacidade de conduzir os estímulo através do corpo, principalmente nos membros. Cai o nível de inteligência e capacidade mental. CORPO EM CRISE: O álcool é tóxico para o fígado, pois provoca o aumento da presença de gorduras no interior das células do fígado. Com o passar do tempo, isso pode resultar numa hepatite alcoólica aguda, e com o uso continuado do etanol, desenvolver a lesão grave e irreversível, denominada cirrose hepática. Na cirrose hepática, há uma diminuição da musculatura geral, fraqueza e aumento do volume abdominal por presença de líquido dentro da cavidade abdominal. Esse estágio é irreversível, mesmo que a pessoa pare de ingerir álcool. O coração é outra vítima do uso prolongado de bebidas alcoólicas. O mesmo álcool que destrói as células do fígado provoca danos às células do coração, fazendo aumentar seu tamanho por dilatação. O coração dilatado perde sua força e o resultado final é a insuficiência cardíaca. O álcool também aumenta a pressão arterial porque o corpo aumenta a quantidade de adrenalina. Praticamente nada no organismo escapa aos prejuízos causados por ele. Assim também ocorre com o aparelho digestivo onde se desenvolve a inflamação crônica denominada gastrite. No pâncreas, a influência do álcool é notória sobre as células produtoras de enzimas digestivas. Com a diminuição dessas enzimas, a digestão se torna deficiente e parte dos alimentos não é absorvida, abrindo caminho para a desnutrição crônica. As células que compõe a musculatura do corpo também são gradualmente destruídas. Perde-se a massa muscular e sobrevém falta de força. Os testículos também são atingidos pelo álcool e o resultado é a atrofia dos mesmos, com diminuição da capacidade reprodutora para ambos os sexos. Mesmo que a pessoa seja capaz de gerar filhos, é maior o risco de essas crianças nascerem com retardo mental. A grande maioria das internações em hospitais psiquiátricos devido à dependência de drogas, deve-se ao uso abusivo do álcool. Como se não bastassem todos esses problemas, o álcool ainda é capaz de desenvolver tumores malignos no organismo. Boca, esôfago, fígado e possivelmente as mamas são os locais preferidos pelo álcool para desenvolver esses tumores. Somente nos Estados Unidos existem de 15 a 20 milhões de alcoólatras. Destes, morrem anualmente cerca de 100.000 pessoas, gerando um prejuízo à nação de mais de 100 bilhões de dólares a cada ano O CAMINHO DA DEPENDÊNCIA: Mesmo diante desses fatos, muitos continuam a recomendar o uso moderado de bebidas alcoólicas, sob a alegação de que quantidades moderadas de etanol aumentam a quantidade do chamado bom colesterol ou HDL colesterol. Entretanto, mesmo que admitamos os benefícios de quantidades pequenas de álcool, e coloquemos na balança os “benefícios” e malefícios que provocam, os pratos nunca se equilibrarão em favor da saúde. A pergunta que se faz é: como alguém chega ao ponto de se tornar dependente de bebidas alcoólicas? Há duas correntes: uma admite que a dependência esteja relacionada às circunstâncias, como uma espécie de compensação afetiva que é muito procurada na adolescência. Estudos realizados com animais, têm demonstrado que o álcool provoca o aumento de substâncias neurotransmissoras no organismo, tais como a serotonina e dopamina, que seriam responsáveis pelas sensações prazerosas que a bebida proporciona. Uma vez passado o efeito, há uma depressão correspondente, que gera nova busca da satisfação anterior. Com o tempo, é desenvolvido o hábito de beber em todas as circunstâncias. Outros defendem o fator genético. Nesse caso, o comportamento abusivo em relação ao álcool não estaria relacionado ao ambiente, ao comportamento ou ao caráter da pessoa, e sim a uma deficiência genética que tornaria a pessoa impotente para controlar seus impulsos. O mecanismo seria o mesmo: a falta de substâncias neurotransmissoras por alteração genética seria suprida pela ação do álcool. Ambas as propostas podem estar presentes no alcoolismo. Há, certamente, problemas genéticos envolvidos, principalmente filhos de pais alcoólicos que transmitem as próprias características à sua prole. Mas nem todos os filhos de pais que bebem, necessitam ser ou são alcoólicos. O único caminho seguro seria abster-se totalmente de bebidas. Se, porém, desejarem usar bebidas alcoólicas com moderação, há grande chance de que esses limites sejam ultrapassados. Uma vez que não conhecemos as nossas fragilidades genéticas, recomendar o consumo de bebidas com moderação é orientação de alto risco. Uma vez que uma pessoa se tenha iniciado no consumo da bebida em quantidades elevadas, não há ainda terapia genética capaz de resolver o problema. A mensagem segura que se deveria fazer soar é não beber sob nenhuma circunstância. Nada no organismo pede álcool, e a sua presença no corpo é estranha e tóxica. A mensagem que nos induz a beber como moderação abre o caminho para todos os problemas que o alcoolismo traz. - Manfred Krusche é médico cardiolgista - Fonte: Revista Vida e Saúde - junho 2007